sábado, 19 de abril de 2014

PETROBRAS, BACTÉRIAS E ANTIBIÓTICOS

Ruy Fabiano

Sem argumentos convincentes – simplesmente porque não os há -, o governo tenta transformar a CPI da Petrobras em ataque impatriótico contra a empresa.

Atribui à oposição um delito que, até prova em contrário – se é que é possível, já que ele mesmo, governo, admitiu que a compra da refinaria de Pasadena “foi um mau negócio” -, é seu mesmo.

Se há ataque à Petrobras, esse é o que praticaram os que a fizeram adquirir por mais de 1 bilhão de dólares uma refinaria em estado de sucata, que valia dez vezes menos. Isso, claro, sem falar na refinaria de Abreu Lima, em Pernambuco, onde se constata que as perdas e os desvios foram bem maiores.

E não apenas: há muito se sabe que a Petrobrás é uma caixa preta de “maus negócios”, gerida por predadores que a fizeram descer da 12ª para a 120ª colocação entre as maiores empresas mundiais. Os números falam por si e dispensam explicações.



Outro fenômeno interessante – e intimamente relacionado - é o fato de as ações da empresa terem subido mediante a expectativa da CPI. Se a iniciativa parlamentar fosse contra a empresa, tal não ocorreria. Se os acionistas celebraram a perspectiva de investigação, é porque sabem que, enquanto se mantiver intocável a caixa preta, continuarão a ter perdas.

Portanto, nenhuma iniciativa é mais favorável à Petrobrás que a devassa que se pretende, e o governo tenta evitar a qualquer custo.

Os discursos patéticos de Graça Forster e Dilma Roussef em “defesa da empresa” são apenas sinais de desespero, de quem sabe que defende o indefensável. Equivalem a uma confissão antecipada de delito. Não é a primeira vez que isso acontece.

Ainda no governo Lula, tentou-se investigar a Petrobrás e a reação foi parecida. Motivou, inclusive, uma inédita passeata contra a CPI. Foi a primeira vez na história que isso aconteceu. Ao tempo em que o PT era oposição, promovia passeatas em prol de CPIs.

Lula dizia que “quanto mais CPIs, melhor”. Era de fato o combustível que mobilizava sua militância, fazendo recair sobre os governos a pecha de suspeita. Naquele tempo, PT e alguns procuradores da República, alguns ainda portadores de carteirinha de militantes (o que é ilegal), jogavam um jogo perverso.

Acionavam jornalistas aliados para que plantassem notas na imprensa levantando suspeita contra algum figurão do governo. Mediante a publicação da nota, um parlamentar petista fazia inflamado discurso, pedindo investigação do Ministério Público. E este, mediante “informações da imprensa”, abria ato investigativo, gerando uma crise artificial que desembocava em pedido de CPI.

Fizeram isso com o ex-chefe da Casa Civil de Fernando Henrique Cardoso, Eduardo Jorge, já fora do governo, mas simbolizando ainda a “caixa preta” da Presidência da República. Eduardo Jorge fora chefe de gabinete de FHC no Senado e seu ministro no primeiro governo. Atacá-lo era atacar FHC. E assim foi.

Não havia um único caso concreto, um único indício, ainda que remoto. Mesmo assim, pediu-se uma CPI baseada em acusações adjetivas, que acabou frustrada pela reação do acusado, que se documentara para além das expectativas dos acusadores, fazendo com que o tiro saísse pela culatra.

Mesmo assim, o ambiente de crise e suspeição manteve-se por meses, gerando desgaste ao governo, objetivo de toda a operação. Hoje, o PT vê-se do outro lado do balcão. E embora esteja há quase 12 anos no poder, tenta ainda atirar à administração tucana o ônus dos padecimentos da Petrobrás.

Busca explorar o velho truque de que o PSDB quis privatizar a empresa e que, por essa razão, ela se encontra no estado lamentável em que está. Só não explica por que, exatamente a partir do primeiro governo do PT, começou a decadência da empresa, fazendo-a desabar para a 120ª colocação no ranking mundial.

A Petrobrás é um dos mais valiosos patrimônios públicos do país. Sua criação foi um dos raros atos ecumênicos do país, a unir a esquerda e a direita. Os militares estiveram lado a lado dos militantes de esquerda que perseguiriam a partir de 64, na campanha nacional que resultou na criação da empresa.
FHC, mais de uma vez, diante das acusações de que pretendia privatizar a empresa, declarou que ela era “imprivatizável”, assim como o Banco do Brasil e a Caixa Econômica.

Não obstante, as acusações se mantiveram e acabaram soando como verdadeiras nos períodos eleitorais, dentro da estratégia recomendada pelo ministro da Propaganda de Hitler, Joseph Goebbels, de que uma mentira, repetida à exaustão, vira verdade.

Doze anos depois, porém, não cola.
É tempo suficiente para corrigir todos os desvios anteriores. Deu-se, porém, o contrário, conforme se verifica na queda vertiginosa da empresa no ranking mundial. A CPI, nesse caso, funcionará como um antibiótico, que, como se sabe, ataca bactérias e salva o organismo.

No caso presente, as bactérias protestam em nome do organismo, que juram defender. É compreensível – e patético.

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