segunda-feira, 11 de junho de 2012

Pobreza endividada

Por Roberto Freire*

O governo divulgou recentemente uma nova definição de classe média, patamar no qual as famílias já teriam superado sua vulnerabilidade social, ou seja, já teriam suas necessidades básicas atendidas e teriam acesso ao mundo do consumo.

Segundo a Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência, 48% da população se encontra na classe média, enquanto somente 15% da população continua na classe baixa.

Os critérios que levaram o governo a decretar que a partir de R$ 291 de renda familiar per capita as pessoas não são mais pobres é algo um tanto obscuro.

Segundo a SAE, esse grupo já não mais seria vulnerável a retornar ao estado de pobreza. Essa renda é muito baixa para ser considerada de classe média.

Para o Dieese, o salário mínimo do trabalhador no país deveria ter sido de R$ 2.383,28 em maio a fim de suprir as necessidades básicas de uma família formada por 2 adultos e 2 crianças. Isso daria uma renda per capita de R$ 595,82.

Com essa renda, segundo a SAE, a família já nem seria de classe média baixa, já estaria na média classe média. O governo do PT encontrou a fórmula mágica de acabar com a pobreza, basta decretar que as pessoas não são mais pobres.

A mera aquisição de bens de consumo não pode ser considerada como superação da pobreza. Pesquisa da socióloga Cláudia Sciré, autora do livro "Consumo popular, fluxos globais" mostra que o fenômeno atual é uma "financeirização da pobreza" e não a efetiva ascensão de uma nova classe média.

Na verdade, a possibilidade de crédito fácil permitiu o acesso a bens de consumo. No entanto, essas famílias, por exemplo, ainda não possuem uma educação de qualidade e são dependentes dos deficientes serviços de saúde prestados pelo Estado.

Retrato disso é o endividamento das famílias. Segundo a Confederação Nacional do Comércio, o percentual de famílias com contas ou dívidas em atraso apresentou alta pelo quarto mês consecutivo em maio, alcançando 23,6% em maio de 2012, ante 23% em abril de 2012.

O percentual de famílias que declararam não ter condições de pagar suas contas ou dívidas em atraso também se elevou de 6,9% em abril para 7,8% em maio.

O endividamento dessa "classe média" com renda tão baixa é preocupante porque pode ocasionar a perda de capacidade de suprir suas necessidades básicas, como alimentação. As pessoas possuem TV de tela plana comprada em 30 prestações, mas têm dificuldade de pagar o supermercado do mês. Estão ou não em situação vulnerável?

Essa euforia consumista das classes mais baixas de nossa estrutura social é o legado que nos deixou a política econômica do governo Lula (continuada no governo Dilma) para contornar a mais profunda crise econômica que o capitalismo vivencia desde o crash da bolsa, em 1929.

Ao incentivar e incrementar o consumo sem atentar para o necessário lastro na renda da população, o governo conseguiu somente criar uma pobreza endividada e ainda mais vulnerável.

Uma vida confortável e feliz, sonho de todos, não será fruto de "milagres", mas de políticas públicas consistentes e baseadas nas reformas estruturais que o país precisa e que este governo sempre se eximiu de promover.

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Este artigo foi originalmente publicado no jornal Brasil Econômico em 08.06.2012

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